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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Flip 2011

A nona edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro, reuniu cerca de 25 mil pessoas, segundo a organização, ao longo dos cinco dias de evento que homenageou o modernista Oswald de Andrade. Mais de 40 mil ingressos foram vendidos para as mesas de debates, que renderam momentos marcantes para a plateia. Outros fatos de destaque ocorreram nos bastidores do evento. Em tempo: o homenageado da décima edição, em 2012, será Carlos Drummond de Andrade.
A musa A argentina Pola Oloixarac chegou a Paraty badalada e com status de musa do evento. Aos 33 anos, formada em filosofia, antenada nas redes sociais, amante de orquídeas e com um único livro publicado, Teorias Selvagens, ela esbanjou simpatia na coletiva em que falou sobre vários assuntos, incluindo futebol e até mesmo a polêmica da ausência de Antonio Tabucchi, que cancelou sua participação no evento em protesto contra a decisão do STF de negar a extradição de Cesare Battisti. No debate, no entanto, teve problemas ao se expressar e acabou ofuscada pelo angolano radicado em Portugal valter hugo mãe, que comoveu a plateia...
O choro O autor de Máquina de Fazer Espanhóis, valter hugo mãe (que escreve o nome assim mesmo, com minúsculas), encerrou sua fala na mesa de debates da Flip lendo uma carta em que relatava sua relação com o Brasil. Falou dos vizinhos brasileiros que teve em Portugal, os primeiros que viu "fora das novelas", a amizade com as amigas brasileiras de suas irmãs, que lhe davam status com as meninas de sua idade, e o gosto pela banda Legião Urbana. Ao final da leitura, foi às lágrimas. Terminou aplaudido de pé. valter hugo e Pola participaram da peça que encerrou a Flip...
Nus O diretor José Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina, encenou sua versão do manifesto antropófago de Oswald de Andrade, escritor homenageado pela Flip este ano, no encerramento da festa. Com atores nus como índios, distribuiu um banquete de frutas e vinhos à plateia e fez referência à uma palestra de sucesso na Flip, com um neurocientista...
A ciência Miguel Nicolelis prendeu o público que acompanhou seu evento ao falar de sua "utopia de restaurar movimentos". Ele anunciou seu projeto de fazer um tetraplégico dar o pontapé inicial da Copa do Mundo 2014 com a ação do cérebro, por meio de uma veste robótica.
Antonio Candido O crítico literário fez a palestra inaugural da Flip este ano. Palestra, não. Como ele mesmo definiu, sua participação foi com depoimentos de um amigo do modernista Oswald de Andrade, classificando-o como uma pessoa "extremamente afetiva" e que tinha como principal traço de personalidade a mobilidade. "Em tudo o que se referia a opiniões, a coisas momentâneas, havia essa mobilidade. Mas ele era de uma extrema constância no que se referia às ideias".
O Sorriso do Lagarto João Ubaldo Ribeiro divertiu o público da Flip ao contar histórias, revelar preferências e ser extremamente franco sobre seu processo de criação. Em certo momento, admitiu que a origem dos livros está na encomenda feita pelos editores. "Cheque gera inspiração". Sobre sua principal obra, Viva o Povo Brasileiro, disse que a motivação não foi "reescrever a história do Brasil do ponto de vista do dominado", como muitos acreditam, mas fazer um livro "grosso" para "esfregar na cara" de um editor que dizia que os brasileiros só faziam "livrinhos para serem lidos na ponte aérea".
Éder Jofre O performático James Ellroy, autor de livros que foram adaptados para o cinema, como Dália Negra e Los Angeles - Cidade Proibida, esbanjou sarcasmo e elogios ao Brasil, incluindo um especial ao ex-boxeador Éder Jofre: "foi o lutador mais perfeito que vi na vida. Espero que alguém possa falar para ele que sou fã dele".
Talking Heads O músico David Byrne, ex-líder da banda Talking Heads, trouxe uma discussão unusual para a Flip: arquitetura, urbanismo e o uso da bicicleta como meio de locomoção. Conhecendo várias cidades do mundo sobre duas rodas e usando pedais, tornou-se um especialista no tema e escreveu Diários de Bicicleta.
A polêmica O francês Claude Lanzmann desentendeu-se com o moderador de sua palestra, Márcio Seligmann-Silva, ao exigir que falassem de seu livro de memórias A Lebre da Patagônia. Chegou a ameaçar abandonar o palco, depois de falar longamente sobre seu filme Shoah, no qual reúne relatos de sobreviventes do holocausto. A atitude dividiu a opinião da plateia, contra e a favor do convidado. O curador da Flip, Manuel da Costa Pinto, defendeu o moderador: "Esse preconceito que há contra o acadêmico é uma coisa nazista. Infelizmente, uma pessoa que trabalhou tanto com essa matéria-prima acaba reproduzindo uma atitude dessa, ser contra a discussão intelectual, filosófica", disse. O dono da editora responsável pela publicação do livro de Lanzmann protestou, classificando a declaração de "equívoco". A organização da Flip considerou a palavra usada pelo curador "inadequada".


(Cláudia Andrade - Portal Terra)


sábado, 9 de julho de 2011

valter hugo mãe

A segunda mesa de leitura realizada nesta sexta-feira (08/07) na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), no sul do Estado do Rio de Janeiro, teve como boa surpresa a presença do escritor angolano valter hugo mãe. Surpreendentemente sincero, que chegou até mesmo a ofuscar a presença da argentina Pola Oloixarac, convidada para ser a atração principal, em um debate que trataria especificamente de obras de ficção.

"Acredito que o escritor procura substituir com a literatura tudo aquilo que lhe falta. Não uso livros para reprouzir a minha vida, por exemplo. Não julgo que seja tão interessante assim para que vire um livro, um filme ou mesmo um festival inteiro de cinema. Não creio que eu seja um James Bond, com uma vida cheia de aventuras. Livros têm que ser sobre o que não tenho, o que não sou. Algo que percebemos de melhor no outro. E sobre as pessoas, que são o melhor do mundo".

Uma pergunta inevitável: por que as minúsculas? Acredita que elas podem em algum momento se tornar uma armadura para sua escrita (como algo “típico” de valter hugo mãe)?

As minúsculas vão ao encontro da oralidade e do modo como pensamos. Pretendem alcançar uma ideia de igualdade e certa aceleração na leitura. Não me levo nunca a sério demais ao ponto de achar que tenho razão, descobri o que está certo e vou ser assim a vida inteira. Não. Quero muito libertar-me também de mim próprio. Encerrei um ciclo de quatro romances escritos em minúsculas, e o meu novo livro, que estou agora mesmo a escrever, terá maiúsculas, convencionalmente, e mostrará como as opções estéticas não devem nunca superar a necessidade de procurar outras maneiras de abordarmos as questões. Estou muito interessado em renovar-me tanto quanto me seja possível.

(O Globo)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Carol Ann Duffy na FLIP

A escritora e poetisa escocesa Carol Ann Duffy participou da mesa Lírica crítica da tarde desta quinta-feira (7) na Festa Literária Internacional de Paraty de 2001. Com mediação da presidente da Flip, Liz Calder, e participação do poeta e tradutor brasileiro Paulo Henriques Britto, o foco do debate ficou por conta da poesia.
Primeira mulher a ser indicada como "Poeta Laureado" do Reino Unido, Carol Ann Duffy tem como traço marcante em suas obras a exploração da sexualidade e violência com intensidade subjetiva e rigor formal. Seus poemas são connhecidos por apresentarem desfechos surpreendentes e ser de fácil acesso para a população. Segundo a mediadora da mesa, Liz Calder, a escocesa é "uma poeta do povo".
Carol Ann Duffy destacou ser um prazer participar da Flip e leu alguns dos seus poemas preferidos. A escritora recitou poemas inéditos do novo livro, The bees (As abelhas, na tradução em português). Entre os livros da escritora estão os títulos, nenhum deles publicados no Brasil, Standing female nude (1985), vencedor do Prêmio Scottish Arts Council, e Rapture (2005), ganhador do T. S. Eliot Prize.
A poetisa encerrou sua participação com versos sobre sua mãe, falecida há cinco anos. "A poesia é para mim uma maneira de liberar o sentimento em forma de linguagem", revelou.



(Luisa Bustamante - In: Jornal do Brasil)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Antonio Candido: "Testemunho de afeto"

O professor, ensaísta e crítico literário Antonio Candido falou nesta quarta-feira (6) sobre a vida e obra de seu amigo Oswald de Andrade (1890-1954), durante a conferência de abertura da Flip 2011. A mesa, intitulada "Oswald de Andrade: devoração e mobilidade", contou também com a presença do compositor José Miguel Wisnik.
Candido subiu ao palco da Tenda dos Autores às 19h24, vestindo paletó bege, e foi aplaudido de pé pela plateia. "O que vou fazer não chega a ser uma palestra; é mais um depoimento. Vou falar de algo que só eu posso falar: como foi Oswald de Andrade. O que farei aqui é um testemunho de afeto."
O professor falou da intimidade do modernista, deixando de lado análises formais sobre sua obra. "Ele era muito suscetível à crítica. Era de um sarcasmo brilhante, esmagava a pessoa. De modo que despertava certo temor. Eu falo porque tenho experiência. Ele me malhou bastante."
Candido contou que a amizade entre os dois começou depois de ter publicado uma crítica negativa sobre um dos livros do escritor, em 1943. "Ele zangou e escreveu um artigo muito violento sobre mim. Mas depois nos encontramos em uma livraria e ele disse: 'ataquei você com violência e você respondeu com serenidade. Proponho que nos tornemos amigos'."
Outro momento marcante na trajetória de Oswald, lembrado pelo crítico como "patético", foi a briga com o amigo Mário de Andrade. "Foi ele que empurrou o Mário para frente. Depois brigaram feio. Mas o patético é que o Oswald passou o resto da vida querendo fazer as pazes com o Mário, e ele se recusava", disse. "Os dois se admiravam profundamente."
Candido disse que, quando Mário morreu, Oswald se "desesperou". Chamou o crítico para falar sobre sua admiração pelo amigo falecido. Segundo Candido, Oswald disse considerar Mário "a maior figura do modernismo brasileiro" e revelou que gostaria de ter escrito "Macunaíma" (1928)."
Oswald não sabia viver só. Precisava de carinho, aplauso, admiração. Ele queria apreciação do próximo. Gostava de estar cercado de gente, dava festas, era muito sociável. Era um homem que não tinha rancor."

(Transcrito do portal G1.com.br - Flip 2011)