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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Texto 5 - Arriete Vilela


– Vamos, menina.
– Pra onde, avó?


Penso eu, por acaso, que vai a avó se dignar a me dar uma resposta? Olhar-me – a mim, miúda flor, tímida, tão – e dizer dos nossos passos o rumo?
Da minha mão toma a avó, ergue a cabeça, mira o caminho. Particularmente feliz me sinto: à mão da avó agarrada, saber o destino já não quero, pouco me interessa aonde vamos.

A andar estamos. Casa após casa, vou vendo caras na janela, gente nova, gente velha, feia, bonita, de todo tipo. Vejo menino, cachorro, galinha. O verdureiro, o amolador de tesoura, o soldador de panelas, o homem do pirulito, dona fulana, seu sicrano, dona beltrana. Dar um bom-dia a avó não dá a ningém; dizer “Como vai?”, não diz. Mexer com a cabeça não mexe, não espia de lado, nem pra baixo, nem pra cima. Olha reto, as pernas passos ligeiros dão, decidida ela segue.
Sou contentamento: minha mão na mão da avó. Não importa o modo nervoso como quase me puxa, nem o aperto que vez ou outra sinto nos dedos. O passo da avó rápido é, e as minhas pernas de menina quase já não acompanham esse ritmo.
– Ainda está longe, avó?
– É bem ali.
– Meus pés estão doendo...
– Eles agüentam.

Quero parar. Faz um tempão que a gente anda. Quero que a avó pare, como a mãe,
numa casa e noutra, para eu ter tempo de no batente me sentar e aliviar os pés.
– Avó, não vamos parar?
– Só sabe reclamar, menina?
Reclamando não estou. Extenuada, isso sim. Cansada, muito, tão. A avó não presta atenção em mim, não tem pena do meu cansaço. Cruel está sendo, embora sem querer, eu sei, mas está. Tanta légua já, tanta casa, tanta rua, gente tanta, poste, porta, calçada alta, calçada baixa, meio-fio, rua de barro, isso assim, aquilo doutro jeito. Sinto que o prazer de estar agarrada à mão da avó extinguindo-se vai com o cansaço. Com as costas da mão esquerda, livro os olhos das gotas de suor que escorrem da testa.
Diminui o passo a avó. O rosto afogueado, suada também. Larga a minha mão, ajeita a trança presa no coque, enxuga o rosto com a barra da saia.
– Chegamos, avó?
– Chegamos.

É o cemitério. Ultrapasso o enorme portão preto de ferro e não sinto medo nem tristeza. Sinto um enorme alívio por ter, enfim, chegado a algum lugar.
– Que bom, avó...
Sento-me na beira de uma cova. As alpercatas desabotôo. Abano o rosto, respiro fundo. Olho o céu, e ele me parece bordado de amarelo: enfeitam-no os girassóis.
A avó se distancia. Que mortos ela tem pra chorar? Que almas lhe pedem reza? Vou vendo-a cada vez menor, entre uma cova e outra, passando ora por uma cruz, ora por uma placa de cimento.
Pequenininha, a avó, lá longe, no fundo do cemitério. Tenho sono, tanto, muito. Mal abro os olhos. Sequer tenho noção de abandono ou medo. Perco a avó de vista. Tudo é silencio.

Que segredos terá vindo a avó guardar no cemitério?






In: Grande baú, a infância

sábado, 15 de outubro de 2011

Fantasia e Avesso V - Arriete Vilela

“Amor, tens sido meu mestre,
Tenho-te servido sobre todos os deuses.
Ah, se pudesse nascer duas vezes,
Como te serviria melhor!” (Clément Marot)



Retomado... Na ronda que fazes à minha paixão. No brinde a esse amor, forte como um cordão umbilical. O avesso das pessoas que desgraciosamente cirandam ao redor da minha fantasia. A palavra, amor: uma natural disposição para a luta, garras afiadas à espreita. A palavra: senha para transpor grades e pedras, senha para todos os privilégios do segredo. A fantasia construindo uma interioridade intocável - pássaro arisco de olho flamejado de emoção. O avesso das concessões amorosas, o coração em agitado entretenimento com o mundo; o colorido das pessoas, suas investidas, seus movimentos, suas farsas e suas festas. Fruição do momento, tu deves entender. Cheiro de lavanda ao vento, uma alegre estrada com miúdas flores arco-irisadas. Uma busca inconsciente, dolorosa e ansiada de sensações que acetinassem a pele sem ferir os escrúpulos. Um estalar de dedos, amor, e o príncipe transformava-se em sapo. Um remoer interior, rasteira nos tormentos do anjo. A palavra: uma crueza no olhar, abstenção e alheamento - contraditoriamente, a assunção da dor. Ama-me à tua revelia. Beija-me repetidamente e morde-me com leveza, amor. Sou animal golpeado que te pode encharcar num sangue vivo e borbulhante. É o risco de te comprometeres com o meu sentimento e com todos os meus avessos. O fio da meada retomado nas astúcias vigilantes. É preciso entender bem a fábula e ter o queijo à mão, enquanto uma bocarra vaidosa canta para os tolos. A palavra na fantasia do poeta vigiando o próprio desespero. Não mais disfarçando um romantismo agora sangrado. O fio da meada perdido entre amor e ódio: próximos e silentes, na tocaia. O fio da meada retomado na resistência do mandacaru. A palavra: um abraço fatídico. Serei cruel se tropeçares, serei mortal se rastejares. Uma serpente a jogar-te mel na boca e luz no olhos. A palavra, amor: uma emoção toda exposta à claridade do sol. O avesso do silêncio a cair pesado sobre a tua ternura, a esmagar a tua lógica, a fluir sob uma fatalidade que te trará a mim. Inevitavelmente. A fantasia, amor, não te esqueças. Abelha e aranha caídas no vermelho da flor. Anjo e fera diante de ti. À tua disposição. O fio da meada retomado no brinde às remotas saudades, às quais já não posso agarrar-me. Porque eu só sei amar explodida de emoção; eu só sei amar ritmada com a própria vida; eu só sei amar com os olhos eternamente encantados da infância. Eu só sei amar assim: desordenadamente. Como o capim que cresce, vigoroso e desigual. Enfim: eu só sei amar quando o meu coração singulariza o amor no meio de quaisquer outros sentimentos. A palavra, tu sabes, às vezes me dói: infiltra-se na asa quebrada do pássaro selvagem, enlouquecendo-o. E tu, amor, que me escreves poemas na alma e não sabes a tortura de se ter poemas escritos na própria alma, etcétera e tal, tu não avalias a perplexidade de uma pessoa diante da palavra no casulo, na toca. O fio da meada perdido numa ronda nostálgica à tua boa vontade de amar. Impulso e relance, fagulha e brilho de vaga-lume. Tudo muito rápido, uma lasca na extensa esteira da eternidade, flor branca que já não me amedronta, porque sou borboleta amarela rondando a flor ardente. A palavra e o cheiro bom que vem de ti. Tu perpetuas em mim a incoerência dos amantes e eu te abraço com o desespero dos ecos perdidos nas montanhas desdobradas. A fantasia, amor, não te esqueças. Sou luar nas frestas da tua alma nua. A palavra às vezes é suave como uma flor noturna; às vezes me lanha e eu me contorço de dor e de desejo. Porque a minha paixão é impulsiva e tragicamente ardorosa. O avesso do jogo que re/inventas todo dia, palhaço vagabundo cigano: sei que estás muito além da minha dimensão cotidiana e é por isso, talvez, que te amo tanto. A palavra: o poliedro que tenho vivido e que está sempre retomado no fio da fantasia que me avessa somente para as tuas grandes incoerências...

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Fantasia e Avesso IV - Arriete Vilela

“E o amor que se perdeu, ao retornar, sempre há de ser mais belo, e maior, e mais grato, e mais forte.” (Shakespeare)

O resgate da fantasia. Novamente atreladas, flor e pedra. O renovo, a palavra desfiando a teia lógica das coisas. No avesso da imprevisibilidade do destino, a marca singularíssima da incoerência da bondade de Deus. O fio perdido, amor, e agora retomado, puxando devagar a extensa esteira da eternidade. Uma questão de sentimento, tu sabes. Antropofágico, sôfrego, inevitável esse tremor nas carnes: o olho atento ao fundo plano do baú. A palavra: um mundo, feito um ovo, repetidamente posto em pé. A palavra, às vezes, encerra-se em si mesma, como a tartaruga. O fio retomado da minha paixão voraz e jogado por cima do muro alto: o grande desafio de vida. Ciranda, cirandinha, vamos de novo cirandar. Ah, amor, distorço passado e futuro para que te incluas somente em mim, pois amar-te é como tocar na força viva do prazer, ferida majestosa feito gema amarela; um prazer doce e tenso, flutuando no teu cheiro secreto, cumulado de úmidas carícias, mornas e nuas, abelhas caídas no cristalino da flor. O avesso do nosso código instaurado, do novo discurso amoroso. A fantasia da mesma lua redonda de brilho e de sonho, refletida no ventre prenhe de ansiadas palavras, com as quais te apalpo e que nunca se submetem aos meus ímpetos. Porque estou sempre perplexa diante de uma saudade que abstrai o sentido real do que rotineiramente és. A palavra: gosto de peixe cru na boca, resina escorrendo pelo corpo, lua cheia encharcada de chuva e de solidão. A palavra é feito espinho no pé. O avesso dessa paixão que às vezes toca a minha alma, impiedosamente, ao ponto de nocauteá-la. Justo a minha alma, cigana e borboleta, intraduzível e silenciosa, que se cria a partir da tua compreensão e morre quando tua lógica encurta o caminho através das formas ensombreadas da linguagem. Ah, a palavra: é como estar leve e solta dentro de um enorme vazio: flutuo sem adjetivos, apenas intuitivamente, isenta de aflições, desenraizada, numa preciosa solidão cheia de acessos a ti, à espera do teu afago e do teu silêncio, atenta ao abandono da tua alma fluida e da realidade fibrosa e vigilante do teu coração. O avesso de qualquer mistério e de qualquer explicação, amor, por causa da minha postura diante da eternidade, desconhecida e incompreensível flor branca que já não me amedronta, porque estou plena somente de ti. Pois os teus olhos de luz dourada me avessam, tu sabes, e então sigo as rotas que traças no mapa dos instantes - e se mudas o rumo, como se fora apenas uma questão de humor, sou gaivota voando com as asas desesperadas de uma águia. A fantasia, amor, da grande lona de circo protegendo-nos de todos os maus olhares, amém. A palavra boiando dentro de mim, energizando a minha carne - borboleta amarela rondando a flor ardente, um grande salto dentro da noite. O avesso da realidade coletiva e gregária, que não comporta o único referencial com que te aguardo: uma vadia paixão, poetizada e hemorrágica, princípio vital cheio de ritos, estopim e emboscada. Uma paixão clandestina, à margem do caminho comum das pessoas; uma paixão impaciente, criativa nos agrados, dengosa, tirânica, intensa. A fantasia, amor, não te esqueças. Novamente atreladas, flor e pedra. Sem fragmentação de vida, sem suspense traído, sem presenças viscosas. Ternuras renovadas, o incenso posto ao lado, as bolinhas no lençol de águas brancas com que te brinco e te cubro etcétera e tal. O fio da meada perdido e agora retomado. Perdido e retomado. Retomado, amor...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Fantasia e Avesso III - Arriete Vilela

“Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
Amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?”
(Carlos Drummond de Andrade)


... e retomado. Noutros termos, bem sabemos. Qual asa quebrada do pássaro selvagem. A palavra: fantasia e avesso. Uma febre, uma doença sem cura, ferida perpétua, apesar da flexibilidade. A palavra: último momento, última chance, último fim. Cais em noite escura, ventania, convite, cheiro acre no lençol. A caixa de rapé, velhas associações, o pigarro, a ira sem espuma. O avesso da própria fantasia: mosaicos sobre a minha amargura de estar vivendo um poliedro. Noutros termos, agora, o cristal e o lírio, a dor e as farpas. O real sem porto de chegada. O avesso cruel, antropofágico, enlouquecido. Janelas sendo fechadas na cara fria de tanto receber o vento cheio de vazios. As ternuras no trilho do trem; os perdões passivos, fáceis e súbitos, indiferentes. A palavra: ouro no velho baú, piratas rondando, o medo furando os olhos, lâmina afiada e seca. O avesso das tuas ponderações, das tuas extraordinárias ponderações, das tuas inúteis ponderações. A tua sensatez e a tua opção. A fantasia que estava por detrás de tudo isso. A alegria que havia nas expectativas e nas imponderações e na tua alma e no meu desejo. 0 fio da meada, amor, perdido e retomado agora noutros termos. De um jeito que eu não queria. Qual desenho no papel jogado às feras. A palavra: plantão e isca, o olho na ponta do anzol. O mundo e as coisas, borboleta marrom, aranha caída no vermelho da flor, baba peçonhenta. Pétalas negras molhadas no sangue doce. Ah, o avesso da singularidade de tudo o que me chegava através de uma hemorrágica paixão. O avesso da libertação torturada na asa quebrada do pássaro selvagem. A dor do golpe dado às costas, a dor da perda. O avesso da minha desesperada decisão de não te procurar, pois continuo sem saber destravar portas e postigos. O avesso, amor, da tatuagem feita a ferro e brasa. A fantasia da lona cobrindo o imponderável circo que era o meu coração, quando estávamos ambos na mesma corda bamba. O avesso dessa história que se vai abreviando e cujo fio está labirinticamente perdido. Ah, a palavra: sem sintonia, agora, sem bússola e sem leme. Descolada de mim, a palavra. O som dos pratos distanciando-se da fanfarra. O som perdido do que me era apaixonante, do que me brincava nos olhos calmos. O fio da meada retomado nos dentes trincados de agoniada dor. O avesso da morte tantas vezes driblada, enganosamente. O descuido do anjo, o descaso, a cruz fincada no chão. Não mais a palavra fácil, não mais o tremor nas carnes, os nervos retesados: a alegria do escrever. O mergulho no mar desconhecido, a cerveja gelada e o balanço na rede. O avesso do privilégio de se ter tudo isso, sabendo-se que os anões roubaram um pedaço do coração, uma lasca da alma, amor, uma fatia do bolo com cobertura de suor vivo. A fantasia das nossas sombras imitando-nos ao sol; do arco-íris desfazendo-se no nosso corpo; das nossas tardes, amor, sem outras presenças e sem esse limão de agora. A palavra: magia e milagre, macio cetim no oco da minha alma. A palavra asfixiando-se na palavra que tu me deste e que era de vidro e se quebrou. A fantasia do reino de muitos avessos e de poucas palavras verdadeiras. A fantasia, amor, da lua minguante. Feito o teu amor. Feito a minha alegria. Feito a palavra. Feito esse fio perdido e, creio, nunca mais retomado.

(In: FANTASIA E AVESSO)

domingo, 9 de outubro de 2011

Fantasia e Avesso II - Arriete Vilela

“Não há garantia nenhuma. Mas é desejar um compromisso, sem nenhuma garantia, que faz do amor algo especial.” (George Weinberg)

O fio da meada, amor: retomado como se, sobre ele, fosses atravessar imensos desfiladeiros. O avesso da civilização nas suas incompreensíveis coerências e nos seus adornos, nas suas explicações intermináveis, quase sempre inúteis. A fantasia do balanço feito na mangueira do fundo do quintal e eu lá, menina ainda, pequenina flor agitando-se ao vento, voando no ar. As inocências desveladas, os nascimentos e os frutos: os quintais da minha fantasia, um mundo minuciosamente sôfrego, cheio de expectativas e de mistérios. E tu, amor, és o começo do arco-íris que mergulha no limite do mar; se já me esperasses ao fim dele, creio que te confundiriam com o pote de moedas de ouro que os seres elementares dizem existir. Eu te quero sempre no começo, no renovo. Eu te quero no sangue aquecido de emoções, e se não te dou a paz dos bem-aventurados bíblicos é porque a paz, amor, é a ausência das emoções humanas e eu te quero cheio de uma humanidade plena, embora imperfeita. Eu te quero prescindindo de uma realidade que passa a ser comum quando não tem avesso. De novo a palavra: mergulho e fôlego, um desafio. Um barulho seco no coração ansioso, uma esmola gorda na mão que obsta o caminho; um tremor nas carnes, os nervos retesados: a implosão - e é tudo uma questão de aura ou de carma. Ou de pelos eriçados de paixão. Ou do fremir. Ou do nada, simplesmente. Porque eu te amo a partir do nada. A partir do pó e do sopro de que somos feitos cotidianamente. Ou de toda essa confusão que se instala no peito que ama e que dança ao som da melodia do andante cantabile. O avesso, amor, de qualquer argumento, de qualquer racionalidade, de qualquer aritmética. A fantasia, não te esqueças. Da flauta doce e dos teus doces olhos. Do mergulho na brabeza do mar desconhecido, uma luta desigual e bonita. Esse mar que nunca te traz, qual marinheiro em desventrados azuis que não são provisórios. A fantasia e o avesso. Dos músculos que não se contraem quando escrevo, porque estou absolutamente entregue. A fantasia dos teus atos que me vêm através de mil pés, nenhum deles capenga. A fantasia da mãe cigana que me rouba numa carroça em pandarecos toda vez que o meu coração sangra. Ela me leva por qualquer estrada, contanto que a dor se distraia de mim e me abandone de mansinho; ela deita a minha cabeça sobre a sua velha saia rodada e colorida e me canta uma canção cigana qualquer; ela afaga os meus cabelos como só uma mãe sabe afagar, porque, então, eu preciso muito de um afago. A mãe cigana me rouba, tu sabes, porque às vezes eu também careço de me curar de ti; ela lê a minha mão e quando vê o teu nome mil vezes repetidamente escrito nos traços do meu destino, ela se cala e sei que terei ximbras vindas dos olhos dela. Eu amo a minha mãe cigana e ela te ama porque sabe que és a minha prioridade de vida. Sim, a palavra, amor: pérola na ostra, pistilo, larva e lastro, possibilidade e intuição. Uma estranheza que, às vezes, apesar da dor na carne, paira muito além de mim. A palavra: uma re/invenção, um sufrágio, um acúmulo. Uma perplexidade, quase sempre. O que excede da minha paixão, hemorrágica e vadia. Tu sabes, amor, que quando me apreendes implicitamente, tu próprio ultrapassas o teu significado visível, e temos, ambos, a sintonia do êxtase real, no cerne mesmo do ato. A palavra é canto de aleluia e serve para que eu me mostre maravilhada diante da doçura enovelada que és, qual borboleta amarela, qual música de Tchaikovsky, qual energia alegre. Ah, amor: fantasia e avesso. O fio da meada, perdido...


(In: FANTASIA E AVESSO)





quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Fantasia e Avesso (I) - Arriete Vilela

"Amar é mudar a alma de casa." (Mário Quintana)

A fantasia, amor. O avesso dos fatos, a realidade fibrosa, a palavra à espera. A saudade enovelando o coração, o mesmo segredo, semente viva. Os olhos no mar cheio de pedras, o clímax e a dor do desejo. A harmonia em todos os caminhos, mesmo os tortuosos. A fantasia, amor, não te esqueças de que quero ser a tua fantasia, a outra dimensão, o avesso do teu cotidiano. A paixão é um dom e nos privilegia - e eu te amo porque tua alma é claricíclica e és paixão feito rochedo submerso e feito artemísia e feito flocos de algodão e feito bolero. O mundo e as coisas, borboleta e presságio, abelha caída no vermelho da flor. A palavra, despojada e oculta, transmudando o castanho da vida; a palavra, atitude permanente, ímpeto precioso e desordenado, gracioso e alegre. A palavra: gangorra e fantasia, significação na tessitura da alma. A palavra, amor, na noite sem estrelas, na solidão fingindo-se distraída, no vôo despretensioso da gaivota cantada no violão da amiga vinda das rendas. A palavra intuitiva, assim como todas as minhas deduções, que nunca foram lógicas. A ternura no abraço de todos os santos baianos, dos anjos barrocos, dos nômades e dos vulneráveis. Alguma coisa minha que já se colou à tua vida, estampa no teu coração, figurinha no álbum. O instante agora é amplo e potente: crio um mundo, que é meu e teu, granítico e atravessado de eucaliptos. A fantasia, amor. O avesso da palavra que crepita e que é êxtase silencioso e secreto. O avesso do pensamento que estranha toda a espécie humana feita à imagem e semelhança de Deus. O avesso, amor, das minhas próprias incoerências e das tuas grandes compreensões. Tenho estado na plenitude lúcida da felicidade, que me surpreende como se fora um milagre. O avesso do teu olho boiando na tarde dourada, boiando no mar que tu me deste, etcétera e tal. O avesso da flor, da raiz, das nuances e do vazio. A fantasia e o avesso. Hemorrágica, essa minha paixão. Excedente, voraz, orgânica, genial e geniosa. Uma tela branca, todo dia. Tu me escreves poemas na alma e não sabes a tortura de se ter poemas escritos na própria alma; tu me pintas o longe e o místico nos olhos e não sabes a loucura de se ter o desconhecido nos próprios olhos. Tu, amor, colhes-me o sangue e o bebes com a inocência de uma criança que toma leite. Pois tu não avalias o quanto a oferenda que sou te pulsa na breve história que és. Porque somos todos uma breve história – e quanto mais avessada, melhor. A fantasia, não te esqueças. A terra humosa, o ritual do incenso posto ao lado, as bolinhas no lençol de águas brancas com que te brinco e te cubro. O chão, animais entorpecidos de tanto amar. O desperdício das horas em que és ouro-sol para outras expectativas. Yo te quiero siempre. No tango, o salão iluminado de muitos olhos; na taberna e no delírio que me causa o Bolero de Ravel. Yo te quiero, amor, mesmo quando és ianque, os braços cheios de promessas vindas da floricultura. O avesso e a fantasia. O grito que é sussurro, gozo e conquista, gozo e sangue, águas calmas desembocando na fúria dos sete mares. O avesso da contemplação de tudo isso. O avesso da opacidade dos outros, dos golpes dados à toa, das ondulações na angústia que me toma toda vez que falo secretas andanças. O avesso da bolha de sabão seguida pelos olhos miúdos e gananciosos de toda a gente que é atraída pelas honrarias, submetida à tirania das pessoas mais fortes: um avesso que fatalmente espocará inchado feito um cogumelo doente. O avesso do feio, do sórdido, do coração endurecido e vampiresco. O fio da meada, amor, sempre perdido e sempre retomado. O sabor de mel nas coisas quando estás por perto. A nota musical caindo na leveza da manhã e, remotamente, no rio em que banhava os meus sonhos de menina. Eu já te intuía e tudo o que foi escrito já era teu. Aliás: eu inteira sou tua, no avesso e na fantasia da vida...

(In: FANTASIA E AVESSO)




quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Texto de Arriete Vilela

TEXTO 9

Meu limão, meu limoeiro, meu pé de jacarandá
Uma vez, tindô lêlê; outra vez, tindô lá lá...



De manhã, onze horas. A mais bonita hora. Suave, brilha a lagoa. Porque nela, contente, espalha-se o sol. Avizinham-se as baronesas, e apressadas, tão, como se atrasadas estivessem para a festa da natureza.
Sem rugas têm as pessoas a cara; hora certamente não é para as rusgas.
E da cozinha vem, do alho jogado no óleo quente, o cheiro. Prepara-se o almoço. Apetitosa hora.
Aí me chama a mãe:
– Vai na quitanda de dona Zinda e diz pra ela me mandar tomate e coentro.
– O dinheiro, mãe?
– Acerto depois.

Vou. De Dona Zinda a quitanda é na direção contrária à lagoa. Ao pé da ladeira.
Dou o recado da mãe.
– Espere um pouco, menina, vou apanhar.
Digo, antes que no quintal ela desapareça:
– E esse limão, dona Zinda, é pra vender?
– Sua mãe também quer limão?
– Não, eu que quero.
– Pra quê, menina?
– Pra brincar.
– Com limão, menina?
– É, a senhora me dá?
– Dou.
Noto um “dou” um tanto seco da mulher. Não importa. Deu, dado está.

Por uma porta estreita desaparece dona Zinda. Ao quintal vai. Do pé de tomate, tomates sadios colhe. Vermelhos, amadurecidos naturalmente. Se cedinho fosse, ainda os apanharia orvalhados. Do canteiro de coentro, um buquê. Perdão dizer buquê. Não que o coentro de dona Zinda não mereça, mas é pelo inusitado da coisa. Cheirosas folhinhas, verdes, da cor mesma das baronesas. Lindinhas.

Pois que chego a casa com os tomates, o coentro, o limão.
– Mandei comprar limão também?
– Não, mãe.
– E por que trouxe?
– Dona Zinda me deu.
– A troco de quê?
– De nada não, mãe, só pra eu brincar.
– Com o limão?
– É, jogar na parede que nem uma bolinha.
– Tem certeza de que dona Zinda deu?
– Deu, mãe.
– Você não carregou sem ela ver?
– Não, imagina!
– Pediu?
– Pedi, ela deu, juro.
– Pois vamos tirar isso a limpo.

Escrupulosa, a mãe, muito. Cutuca dos filhos os pertences: “Quem lhe deu isto?, vou perguntar se deu mesmo, não quero novidades, se me chegar com alguma coisa dos outros leva uma pisa, blá blá blá”.

Pois bem. À quitanda de dona Zinda vamos. Tirar a limpo do limão a história, mesmo que não careça. Tranquila vou, no bolso da saia o limão levo. Novinho, graúdo, de cheiro acre e bom.
– Dona Zinda, vim perguntar uma coisa.
– Pois diga.
– A menina me chegou com uma limão, disse que ganhou, é verdade?
Mostro o limão, acomodado está na minha mão, e bem, já gosto dele, muito.
– Este, dona Zinda, a senhora deu à menina?
– Este limão assim graúdo, bom de vender?
– Sim, este mesmo.
– Dei não.
– Não?!
– Ela deve ter pegado quando fui ao quintal, mas dar não dei.
– Pois muito bem, dona Zinda, bote o limão na minha conta.

Sinto da palavra o ferrão, e na garganta me atravessa um ah! indignado. Dizer “Mentira, dona Zinda está mentindo, eu não tirei escondido o limão!”, não digo. Embaraçada e ferida, olho-a; mas a mulher, indiferente, já se ocupa em anotar na caderneta de fiados a dívida do limão.

Pois que em casa, irada, sentindo-se ultrajada, envergonhada, a mãe me impõe um castigo:
– Você vai chupar esse limão até a última gota, está ouvindo?
Graúdo, bonito, cheiroso, o limão. Pra brincar serviria deliciosamente. Bola ligeira da mão para a parede. Brincadeira solitária, sei, mas ia me entreter um bocado. Ia.
Na boca, porém, outro é o gosto deste limão. Azedo, tão, azedíssimo, insuportável quase.

Amargo entretenimento.

(In: Grande baú, a infância)



sábado, 2 de julho de 2011

Há 50 anos, morria Ernest Hemingway

Meio século se completa neste sábado desde que o escritor Ernest Hemingway apertou o gatilho de sua pistola e pôs um trágico fim a uma trajetória de vida na qual se consagrou como "modelo de escritor moral", ao relatar os horrores e paixões provocados pela guerra.
"Ele viveu com paixão e um enorme respeito pelas outras culturas, com compromisso e determinação em tempos de guerra. Tudo isso o transforma em um estupendo modelo moral", diz à Agência Efe James Meredith, presidente da Hemingway Society, dedicada a preservar o legado do escritor.
Autor de cinco romances e mais de 50 relatos, Hemingway cultivou uma imagem de viajante e aventureiro infatigável, com prolongadas viagens a França, Itália, Espanha, Cuba e África durante seus 61 anos de vida, nos quais testemunhou as duas guerras mundiais.
Nascido em 1899 em Oak Park, nos arredores de Chicago, a vocação de Hemingway não tardou a brotar. Pouco após terminar seus estudos, começou a trabalhar com apenas 17 anos como repórter no jornal "Kansas City Star".
Sua permanência no periódico mal durou um ano, mas Hemingway sempre lembrou o livro de estilo do jornal ("frases curtas, primeiros parágrafos curtos)" como guia para sua ágil escrita, que posteriormente inspiraria imitadores.
À primeira oportunidade que teve, o então jovem Hemingway abandonou os Estados Unidos e partiu ao front para trabalhar como motorista de ambulância na frente italiana durante a Primeira Guerra Mundial, de onde retornou ferido e com restos de estilhaços nas duas pernas.
Como correspondente do diário "Toronto Star", voltou à Europa e viveu em Paris durante a década de 1920 junto à chamada "Geração Perdida", um grupo de escritores americanos entre os quais estavam Gertrude Stein, Ezra Pound, John Dos Passos e F. Scott Fitzgerald.
Nessa época, uma das mais prolíficas de sua carreira, publicou dois de seus romances mais reconhecidos, "O Sol Também Se Levanta" (1926) e "Adeus às Armas" (1929).
A guerra, um dos grandes temas literários de Hemingway, voltou ao trabalho do escritor com a eclosão da Guerra Civil Espanhola (1936-39), conflito que ele cobriu como correspondente em Madri.
Hemingway já tinha então se casado duas vezes e comprado uma casa em Key West, ilha no sul da Flórida onde cultivava duas grandes paixões além da literatura: a bebida e a pesca.
Posteriormente, após o sucesso de "Por Quem os Sinos Dobram" (1940), voltaria à Europa para cobrir o Desembarque da Normandia na Segunda Guerra Mundial e a libertação de Paris da ocupação nazista.
"Todos os bons livros têm algo em comum, são mais verdadeiros que se as coisas tivessem realmente ocorrido", era uma de suas frases mais repetidas ao ser questionado sobre a veracidade de seus escritos.
Mulherengo, boêmio e nômade, encarnava a lenda do escritor errante na busca de histórias para sua máquina de escrever, que datilografava sempre de pé.
"Sempre faça sóbrio o que você disse que faria bêbado. Isso lhe ensinará a manter a boca fechada", era outro de seus irônicos lemas.
Casou-se pela terceira vez e foi viver em Cuba, na Finca Vigía, onde concluiu "O Velho e o Mar", breve e renomado romance sobre um dia no mar de um velho pescador cubano, pelo qual recebeu o Prêmio Pulitzer em 1953.
Nos anos 40, Hemingway descobriu o continente africano, aonde viajou várias vezes para praticar outro grande passatempo: a caça, numa época magnificamente retratada em um de seus relatos mais conhecidos, "As Neves do Kilimanjaro" (1960).
Esteve a ponto de morrer após sofrer acidentes aéreos, que o deixam seriamente ferido e o impediram de viajar a Estocolmo para receber em 1954 o Prêmio Nobel de Literatura.
Após Mark Twain e Jack London, Hemingway é o escritor americano mais traduzido a outros idiomas.
Em 1960, abandonou definitivamente Cuba; com a saúde debilitada, Hemingway ficou recluso em sua residência de Ketchum, no estado americano de Idaho. Um ano e meio depois, com três romances ainda pendentes, Hemingway cometeu suicídio.
Seu último livro veio à tona, paradoxalmente intitulado "Paris é uma Festa", uma jovial celebração de seus anos de juventude na capital francesa.
Nos Estados Unidos, seus fãs lembram seu legado nos chamados "Hemingway Days" no fim de julho, coincidindo com a data de seu nascimento (dia 21), com diversos eventos em Key West entre os quais está um sarau de contos promovido por sua neta, a também escritora Lorian Hemingway.


(FOLHA DE SÃO PAULO -- Ilustrada)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O que é ser jovem até o fim -- de Betty Milan



O que significa envelhecer? Ouso perguntar o significado do verbo, que a modernidade ocidental baniria da língua se pudesse. No primeiro sentido do dicionário, envelhecer é tornar-se velho. Leio e releio a frase, que me remete a um amigo de infância, Francisco, precocemente envelhecido. Continuo, no entanto sem resposta.
Volto ao dicionário. No segundo sentido, envelhecer é tomar aspecto de velho. Olho a foto do psicanalista francês Jacques Lacan que está na parede e observo seus cabelos brancos. Só que ele não se mostra envelhecido pelas suas cãs. A intensidade do seu olhar evidencia a juventude do homem – que permanecia jovem aos 74 anos, quando o conheci. Só bem depois ele perdeu o aspecto jovial.
Nos outros sentidos fornecidos pelo dicionário, também não encontro uma resposta satisfatória. No caso dos seres humanos, não se pode dizer que envelhecer é perder o viço. O homem não é um fruto. Tampouco não é um objeto.
A busca de uma definição precisa, por meio de língua, se revelou estéril. Olho de novo para a foto de Lacan e concluo que o envelhecimento físico, por si só, não é suficiente para caracterizar um velho. Eu me pergunto, então, por que ao contrário de Lacan, meu amigo Francisco envelheceu aos 60.
Citando – e comparando-se a – Pablo Picasso, o pintor espanhol, Lacan dizia que não procurava as suas ideias, simplesmente as achava. Um dia, declarou em um dos seus seminários: “Eu agora procuro e não acho”. Com essa frase, anunciou que a sua vida se apagava. Pouco depois, tomei o avião de volta para o Brasil. Naquele período, a única razão para eu ficar no França era a oportunidade de trabalhar com ele.
A juventude de Lacan, como a de Picasso, estava ligada à capacidade de se renovar através do trabalho. Duas vezes por mês, ele falava em público, para plateia de 1 000 pessoas, com ideias novas, uma atividade que demandava grande esforço. Mais de uma vez, encontrei-o exausto, em seu consultório.
Lacan foi um exemplo por nunca ter parado de começar. Embora fosse um intelectual, meu amigo Francisco acreditou que, a partir dos 60 anos, já não podia iniciar nada e, por esse motivo, não parou de se repetir. Não quis, inclusive, abrir mão de nenhum hábito da juventude.Continuava a comer, beber e fumar como aos 18. Lamentava o tempo que passava, porém não aceitava o fato traduzido nas mudanças do corpo e, assim, recusava-se a encontrar soluções para sua própria vida. Só sabia dizer: “Na minha idade é assim”. Foi vítima de uma fantasia arcaica sobre o tempo e viveu na contramão. Fazendo de conta que o tempo não existia. Morreu precocemente por não ter sido capaz de entender que, depois de deixar de ser natural, a juventude é uma conquista.


Betty Milan é psicanalista e escritora.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Uma vida tecida de palavras -- Neide Medeiros





Tece, tece,tece, tece, / Bem tecida essa canção / Um a um, fio por fio, / Como faz o tecelão / Que fabrica o seu tecido / De cambraia de algodão. (Marcus Accioly. "Poemeto do Tecelão ou A Canção Tecida")


A trajetória literária de Arriete Vilela começou muito cedo, não importa a data da publicação do seu primeiro livro. No texto de teor autobiográfico, "Alma rendilhada, alma enrodilhada" (1), vamos encontrar a menina de olhar buliçoso a observar a avó fazendo rendas na almofada de bilros e, diante da fascinação do movimento ligeiro e preciso das mãos da avó, a “menina miúda” faz uma revelação: “Avó, quando eu crescer, também quero fazer renda, mas não é de linha, não, é de papel.” (2) E esse tem sido o trilhar da poeta, cronista, contista, ensaísta e romancista Arriete Vilela – tecer rendas de papel.

A leitura dos poemas, contos, crônicas, memórias e romance de Arriete Vilela revela-nos uma escritora preocupada com a arte da palavra, com a tessitura do fazer poético. Se há recorrência temática, essa recorrência vem sempre revestida de uma roupagem nova, o bordado nunca é o mesmo, a palavra tecida adquire nuances diferentes. Arriete gosta de reescrever seus textos, e elementos intratextuais se apresentam de forma reiterada.
Edilma Bomfim (3), no livro A escritura do desejo, dissertação de mestrado sobre Fantasia e avesso, afirma que: “O recurso do fio da meada faz que o texto de Arriete seja tecido de tal forma que cada novo texto é a paráfrase do primeiro, ou melhor dizendo: Fantasia e avesso é um intertexto do próprio texto, que se revela na intratextualidade do discurso.”
Sônia van Dijck, no ensaio "Arriete e o mergulho na palavra" (4), destaca que a produção espaçada de Arriete se deve à necessidade de tempo para amadurecer o texto, e complementa: "Quando um livro seu é entregue ao público, lá estão as palavras exatas, prenhes de polissemia."
O professor e crítico literário Roberto Sarmento (5) faz uma observação sobre Fantasia e avesso que pode ser aplicada a outros livros de Arriete. Diz o crítico: "O grande herói do texto de Arriete, que parece ser o amor, é, na verdade, a palavra. A fantasia e o seu avesso entregam-se, em todas as páginas, a uma luta de vaivéns, avanços e recuos. Todo o texto é a discussão acerca da palavra poética: pretextando falar do amor, o texto fala de si mesmo." (p.31. grifos do autor)
Feitas essas considerações preliminares, caminhemos ao encontro do mais recente livro da autora – Ávidas paixões, áridos amores (6). Comecemos pela capa – fotografia de um mar sereno; galhos secos retorcidos que aparecem em primeiro plano e flores de vermelho intenso contrastando com o verde-azul do mar. Esse contraste das cores condiz com o título do livro. “Ávidas paixões” se associam a um desejo intenso, ardoroso, inflamado; “Áridos amores” remetem à dureza, algo seco, frio.
O livro, como um todo, compõe-se de 40 poemas não nominados, apenas numerados; os poemas 35, 36, 37 e 38 foram pinçados do livro Vadios afetos. 36 poemas vêm antecedidos por epígrafes, e uma epígrafe de Machado de Assis antecede a apresentação dos poemas. Machado de Assis, profundo conhecedor da alma humana, filosofa, com certo pessimismo, na epígrafe escolhida para abertura do livro: "Alguma coisa escapa ao naufrágio das ilusões". No que se refere à escolha das epígrafes, sentimos que foi um trabalho de garimpagem, a escolha acertada para cada poema. Uma breve amostragem dessas escolhas comprova o que afirmamos.
O poema 25 traz uma epígrafe de Baudelaire: "O tempo é o obscuro inimigo que nos corrói o coração", e o primeiro verso do poema ratifica a epígrafe: “O tempo des/const/rói a vida”, e a 5ª. estrofe, formada apenas por um verso, é uma repetição compartilhada da desconstrução: “O tempo nos tem des/const/ruído”.
O poema 38, publicado anteriormente em Vadios afetos, vem acompanhado de uma epígrafe de Mário Quintana: "Amar é mudar a alma de casa." Essa epígrafe se contextualiza, de forma mais evidente, na última estrofe: “E como não recomeçar o jogo / se, à maneira de Quintana, / é o amor que muda a minha alma de casa?”
Há muita coisa ainda para dizer, mas isso exige um estudo centrado apenas nas epígrafes e há poemas que precisam ser descobertos, palavras que merecem ser contempladas mais de perto.
No universo poético de Ávidas paixões, áridos amores, o "Poema 17", que vamos transcrever na íntegra, talvez seja o mais representativo do trabalho artesanal de Arriete Vilela com a palavra:
Poema 17
Não enxerguem um símbolo onde nenhum foi pretendido. Samuel Beckett
“Não me interessa / o lado direito do bordado / da minha escrita. // Prefiro emaranhar-me aos fiapos / do avesso que sou – em que o tecer, / pelos repetidos caprichos, / deixa de ser revelador. // Não me interessam os registros, / à esquerda do bordado, / que parecem contar a história / que os outros pensam ser a minha / - e que não é - . // Prefiro pelejar-me nos esgarçamentos / das pontas que não foram devidamente / arrematadas e em que ressoam / vozes femininas, / como se bisavó e avó, / mãe e tia pudessem, enfim, reconhecer / que se desperdiçaram em amores abrasadores / e tirânicos. // Aliás, sinto-me cansada da herança dessas mulheres / cujo bordado da própria vida deixou à mostra / cores desesperadas, ciúmes desnecessários / e afetos enrodilhados. // Por isso permaneço quieta / nas flores azuis do linho: /só o que me interessa / é a interioridade / do bordado.”


A epígrafe de Samuel Beckett é retomada em forma de versos na 3ª. estrofe do poema, quando o eu-lírico assim se expressa:“Não me interessam os registros, / à esquerda do bordado, / que parecem contar a história / que os outros pensam ser a minha / - e que não é -.”Muitas vezes o leitor quer atribuir certos registros como símbolos de uma vida, mas as palavras camuflam sentimentos, dores, afetos e amores. Tudo é e não é, como bem disse Guimarães Rosa. O direito do bordado, na sua aparência, é o lado revelador da verdade, por isso o eu-lírico prefere emaranhar-se nos fiapos do avesso, nas pontas que não foram devidamente arrematadas e permanecer oculta na interioridade do bordado.

No início do nosso texto, falamos sobre a presença da intratextualidade nos poemas, contos e crônicas de Arriete Vilela. O "Poema 17" contém muitos elementos intratextuais. “Avesso”, “bordado”, “fiapos”, “tecer”, “afetos” são vocábulos reiterados em seus inúmeros livros. Arriete é uma tecelã que sabe, como nos versos de Marcus Accioly, tecer bem tecida uma canção. Na sua fábrica, ela produz tecidos de cambraia de algodão e borda as palavras em folhas de papel que são lançadas ao vento. Felizes são aqueles que conseguem apanhar algumas dessas folhas.




* Neide Medeiros é ensaísta e crítica literária.


NOTAS E REFERÊNCIAS1. O texto "Alma enrodilhada, alma rendilhada" se encontra no livro Artesanias da palavra. Arriete Vilela et al. Maceió: Grafmarques, 2001, p. 21-22. Esse mesmo texto foi transcrito no livro Memórias rendilhadas: vozes femininas. Neide Medeiros e Yolanda Limeira (orgs.) João Pessoa: UFPB/ Ed. Universitária, 2006. p. 13-14.2. Essa citação está presente no texto "Alma enrodilhada, alma rendilhada", op.cit. 3. A dissertação de mestrado de Edilma Bomfim versou sobre o livro de Arriete Vilela Fantasia e avesso com o título A escritura do desejo. Cf: BOMFIM , Edilma Acioli. Maceió: EDUFAL, 2001, p. 56.4. DIJCK, Sônia van. Arriete e o mergulho na palavra. http://www.soniavandijck.com/arriete.htm. Este texto também foi publicado em Fabulação. Um novo tempo, João Pessoa, ano I, n.5, set.2003, p.12-14 e em O Jornal, Maceió, 12 out. 2003. 5. LIMA, Roberto Sarmento. Da palavra amor ao amor da palavra. In: Leitura. Revista do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade Federal de Alagoas, Maceió, n. 4, p. 9, jul.-dez. 1988.6. VILELA, Arriete. Ávidas paixões, áridos amores. Maceió: Grafmarques, 2007.

O que é viver bem -- Cora Coralina




“Eu não tenho medo dos anos e não penso em velhice. E digo pra você, não pense. Nunca diga estou envelhecendo ou estou ficando velha. Eu não digo. Eu não digo que estou ouvindo pouco. É claro que quando preciso de ajuda, eu digo que preciso.

Procuro sempre ler e estar atualizada com os fatos e isso me ajuda a vencer as dificuldades da vida. O melhor roteiro é ler e praticar o que lê. O bom é produzir sempre e não dormir de dia. Também não diga prá você que está ficando esquecida, porque assim você fica mais. Nunca digo que estou doente, digo sempre: estou ótima. Eu não digo nunca que estou cansada. Nada de palavra negativa. Quanto mais você diz estar ficando cansada e esquecida, mais esquecida fica. Você vai se convencendo daquilo e convence os outros.

Então silêncio! Sei que tenho muitos anos. Sei que venho do século passado, e que trago comigo todas as idades, mas não sei se sou velha não. Você acha que eu sou? (...)

Tenho consciência de ser autêntica e procuro superar todos os dias minha própria personalidade, despedaçando dentro de mim tudo que é velho e morto, pois lutar é a palavra vibrante que levanta os fracos e determina os fortes.

O importante é semear, produzir milhões de sorrisos de solidariedade e amizade. Procuro semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça.Digo o que penso, com esperança. Penso no que faço, com fé. Faço o que devo fazer, com amor.Eu me esforço para ser cada dia melhor, pois bondade também se aprende.”






Cora Coralina morreu em 1985, aos 95 de idade; cuidou do seu interior e tinha todas as linhas da vida no rosto - e que vida !




Enviado pela escritora Terezinha Fialho (João Pessoa)


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Os últimos dragões (como perder o tesão de escrever) -- Márcia Denser

Sou escritora profissional, 58 anos, 40 de carreira literária por vocação (inevitavelmente jornalista por deformação profissional) e estou prestes a desistir de tudo isso, isso que, para mim, era um prazer – embora não fosse absolutamente um prazer – antes um gosto de sal, um desejo de renunciar a toda escrita enquanto escrevo, porque já não escrevo quando penso em todas as circunstâncias adversas que tornaram a cidade um local profundamente insalubre (não bastassem as internas como o terror a inércia o terror o adiamento da verdadeira vida) para esta escriba, circunstâncias que me obrigam a esquivar-me, engendrar expedientes, me fazendo recuar, me acossar, restringir-me a este caderno e a este momento solitário em meu estúdio, quando subitamente percebo que é vital essa espécie de balanço e ajuste de contas, de levantamento das atuais circunstâncias sociais adversas, as mesmas que até há poucos anos me incitavam a prosseguir, mas que agora me remetem ao âmbito dum cerco que se instaura e te sitia, como um horizonte de cães, tornando insuportável simplesmente o ato de sair – sair no verdadeiro sentido da ação que ficou sem sentido, ação/contenção, ação/inação, ergo não age, não existe. Bom.
Simplesmente sair, sentar num bar, pedir um drinque, acender um cigarro, abrir este caderno, simplesmente começar a escrever e lá ser deixada em paz com meu drinque, meu cigarro, minhas palavras, minhas ideias, concentrada sobre este texto que começaria se estendendo, espiando o início da noite, alheia ao ruído, perfeitamente concentrada e feliz e perseguindo as evoluções silenciosas eriçando-se de negros caracteres na fímbria dessa tessitura febril. Mas todas essas circunstâncias foram estancando, minguando, secando o fluxo da consciência, porque o cigarro já não é possível, donde o drinque fica meio chocho e este caderno, esta caneta tão anacrônicos, clamando por um laptop, por enquanto fora de cogitação, até porque não posso me dar o luxo de perder ficção, foda-se o laptop, e logo eu, que gosto de beber meio além da conta e fumar compulsivamente, principalmente quando o trabalho deslancha, atenta unicamente a esta voz interior, o surdo ditado imperioso urdindo palavras, sentenças, períodos, determinando ritmo e andamento, acelerando vertiginosamente o sincopado, o contraponto da ação em direção ao seu destino, buscando o verbo que as leve e o diabo que as carregue.
Em linhas gerais, era disso que tratava meu mister de escritora, constatando desesperadamente que agora o mundo levanta muros, interdições e justo a mim, que me basta tão pouco – um bar, um drinque, um maço de cigarros, a cidade que anoitece, vozes inaudíveis, garçons, sombras esquecidas – aquele espetáculo de sombras passando ao nosso lado, porém vivendo num mundo paralelo – usando a metáfora de Conrad ao se referir às embarcações nativas ao cruzar as naus de Sua Majestade, só que, no meu caso, “do outro lado” estava eu: out and nowhere.
Simplesmente aparecer em lançamentos de livros, encontrar amigos que conversavam e fumavam e bebiam – que não pintavam a contragosto, por obrigação, mas como quem vai a uma festa – donde rosas, vinho, risos, êxtases, rupturas, controvérsias, imprevistos, dois ou três amores, saudades, ausências – e o monstro social de mil línguas flamejantes nos fazia renascer mais belos, brilhantes, engraçadíssimos, dada a inexistência de 1) seguranças; 2) café descafeinado; 3) cerveja sem álcool; 4) crachás; 5) metanfetaminas, garrafinhas d’água & iPod; 6) lanches e sucos naturais; 7) fones de ouvido; 8) telão; 9) atravessar incontáveis barreiras, avançar em meio a um dédalo de emoções inúteis; 10) desacontecimentos Inc.
Desacontecimentos lá fora, silêncio (desescritora) aqui dentro. Como naquele jazz, Out and nowhere.
Da minha laia encontro um amigo cartunista: desenha e solta e espalha imagens em mesas com toalhas de papel, esboços balbuciantes que vão se alastrando, esboçando caras, focinhos, narizes, plantas que viram animais que viram monstros que se petrificam ou explodem em híbridas trepadeiras oceânicas conforme seus humores & universo pessoal: não desenha para se comunicar, mas pra mergulhar, desaparecer, descer buscando restabelecer contato com aquele mundo mais perdido e mais profundo que persegue, interminavelmente oceânico. Ele também recusa, também nega qualquer aceitação das presentes cirunstâncias adversas e sem tesão, daí subverte as convenções de superfície forrando-as totalmente com respostas sem perguntas: Out and nowhere, fora e em nenhum lugar.
Assim como ele, me sinto tão longe e absurdamente tão próxima do mundo, dos outros, da vida, do ano de 2010, dum bar na Vila Madalena onde alguém senta ao meu lado e pergunta se estou escrevendo um novo livro e, nesse caso, por que à mão? Coisa mais antiga, compra um laptop, fone de ouvido, aí sim você fica muito mais out and nowhere (sic), mas não devia fumar, aliás aqui é proibido, saca, é proibido em todo lugar, se liga, apaga isso, não dá mole pro segurança, pede um suco de acerola, tigela de açaí, taí o convite do lançamento do meu novo livro, vai ser na FNAC, das 19h às 21h, vão ter umas leituras, conto contigo, convida aí teu amigo, coquetel, claro, chás e sucos bem naturebas, e vê se não atrasa porque fecha.
Ficamos olhando ele ir embora com aquelas roupinhas, aquele topete eriçado bico de pato de quem acabou de abrir uma franquia do FransCafé no Iraque, eu e meu amigo cartunista, ficamos só olhando, assim, sem palavras.
Nós, os últimos dragões.

Márcia Denser é paulistana. Publicou, entre outros, Tango Fantasma (1977), O Animal dos Motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora (1986), Toda Prosa (2002) e Caim (2006). Participou de várias antologias importantes no Brasil e no exterior. Organizou três delas - uma das quais, Contos eróticos femininos, editada na Alemanha. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura brasileira contemporânea, jornalista e publicitária.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O livro da solidão - Cecília Meireles



Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: "Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta...?"
Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: "Uma história de Napoleão." Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio... Pode ser um passatempo...
Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo... E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.
Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.
Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.
Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência às noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém...

O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.
O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes —, mas obedecendo à lei das letras, cabalística como a dos números...

O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações.
E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas...
Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores...
A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro.
E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos.
Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.
Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E, sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Assim te recordo, mãe... - Texto de Arriete Vilela



Recordo-te, mãe, em desassossegos de amor : teus olhos verdes – docemente compassivos quando postos nos filhos – atiçavam-se em iras de ciúme do único homem que o teu coração privilegiou.

Recordo-te, mãe, em desperdícios de afeto : teus olhos verdes – ferozmente indecifráveis quando postos sobre o teu tão humano e frágil amor – esgarçavam-se em desculpas, porque sabias, mãe, quanto teus filhos careciam do teu colo, e não o tinham, e careciam da tua paz, e não a tinhas, e careciam do teu boa-noite, do teu beijo leve no rosto, do teu afago, mãe, mas vivias entre ventos tormentosos que te lançavam contra os rochedos pontiagudos dos sentimentos ameaçadores, mesquinhos, imaturos.

Recordo-te, mãe, com uma dor danada na alma, sobretudo hoje: não te amaste a ti mesma como devias, não preservaste a bela chama que ardia no teu peito de mulher apaixonadamente ardente, e permitiste que a tirania amorosa conduzisse para mares tempestuosos a tua grande capacidade de doação e de alegria.

Recordo-te, mãe, como a pessoa mais íntegra da minha vida. Não soubeste, contudo, polir as arestas do teu coração : tua franqueza e tua autenticidade desconcertavam as pessoas, e eu mesma, muitas vezes, não soube lidar com o verde dos teus olhos : uma força que incidia diretamente nas fragilidades, como um raio de sol forte sobre as asas da pequena borboleta, no azul dos dias.

Recordo-te, mãe, para além das banalidades da vida : és hoje um brilho que se imprime em mim e me faz lutar pela difícil vivência harmoniosa do amor.

Recordo-te, mãe, como o colo por que anseio quando a poesia vem aninhar-se junto a mim, e eu careço apenas de que me entoes, mesmo tardiamente, uma dessas delicadas cantigas que trazem os melhores sonhos em doces e infantis palavras...

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Mãe e Amor - Texto de Arriete Vilela

Falar em Mãe significa falar em Amor, porque ambos são absolutamente compatíveis e se celebram numa reciprocidade única, singular: o Amor entretece a Mãe, pois a precede e a ilumina, mas é ela quem o perpetua e lhe dá ecos infinitos de generosidade, de esperança, de ternura e de liberdade.

Mãe é sinônimo de Amor intenso, sublimado, que quer sempre o bem, que sabe compreender e perdoar. Amor para a vida inteira.

Mãe e Amor entrelaçam-se, completam-se, nutrem-se, solidarizam-se, fortalecem-se, transcendem-se.

Talvez ninguém vivencie melhor o verdadeiro sentido do Amor do que uma Mãe, pois ela o acolhe e o preserva na própria alma, imortalizando-o em outros corações, em outras vidas, em outros destinos.

Mãe é poesia, delicadeza, renúncia, compaixão, experiência, sensibilidade.

E somente no coração de uma Mãe, o Amor de fato triunfa.

sábado, 23 de abril de 2011

O Pequeno Príncipe: um livro que permanece novidade - Texto de Neide Medeiros








Literatura é novidade que permanece novidade.
(Ezra Pound. ABC da Literatura)

O crítico literário Ezra Pound, em ABC da literatura, apresenta dois conceitos de literatura – Literatura é linguagem carregada de significado e Literatura é novidade que permanece novidade. Esses conceitos poundianos se aplicam muito bem ao livro O Pequeno Príncipe.
Amélia Lacombe, em nota introdutória à edição da Agir (2004), explica o porquê da permanência desse livro:
Livro de criança? Com certeza. Livro de adulto também, pois todo homem traz dentro de si o menino que foi.
(...) Como compreender que uma história aparentemente tão ingênua seja comovente para tantas pessoas?
O Pequeno Príncipe devolve a cada um o mistério da infância. De repente retornam os sonhos. Reaparece a lembrança de questionamentos, desvelam-se incoerências acomodadas, quase já imperceptíveis na pressa do dia-a-dia. Voltam ao coração escondidas recordações. O reencontro, o homem-menino.
A história do pequeno príncipe é bem conhecida dos leitores, vejamos alguns dados que estão por trás da narrativa.

A origem do livro:
Em dezembro de 1935, quando tentava fazer o percurso Paris-Saigon, o avião pilotado por Exupéry sofreu uma pane e ele se viu obrigado a aterrissar a 200km de Cairo, em pleno deserto. Durante cinco dias, o piloto percorreu o deserto até que encontrou uma caravana de nômades que o socorreu. Foi dessa própria experiência vivida no deserto que nasceu O Pequeno Príncipe.
Escrito e ilustrado por Exupéry, a história apresenta um narrador que conta como ficou ao relento durante uma pane que seu avião sofreu no deserto de Saara. Na primeira noite, o piloto dormiu nas areias do deserto e foi aí que apareceu o pequeno príncipe. É nesta parte que entra o reino da fantasia, e a história assume ares de fábula. A raposa e a rosa, personagens que convivem com o principezinho, são seres falantes.


Criação da personagem:
Há duas versões que explicam como se originou essa personagem que tem despertado a atenção de crianças e adultos.
O ano de 1935 foi marcante para Exupéry. Enviado para Moscou com o objetivo de fazer uma reportagem, ele descobre, na viagem de trem para Polônia, em um dos vagões, um pobre casal com uma criança. A beleza do menino levou-o a pensar na figura do músico Mozart e de um pequeno príncipe. Dessa visão, surgiu a ideia de criar o personagem.
Durante o verão de 1941, Exupéry esteve internado em um hospital de Hollywood e recebia sempre a visita da atriz francesa Annabella Power, casada com Tyrone Power. Nessas visitas, a atriz lia para o escritor/aviador a história de A Pequena Sereia, de Andersen, e esta bonita história teria influenciado a criação do pequeno príncipe. Aliado a isso, Exupéry confessou, certa vez, que gostaria de ter escrito uma história à moda dos contos de fadas. Esta seria a segunda versão para a criação dessa personagem que traz de “volta ao coração escondidas recordações”.
Antoine Jean Baptiste Marie Roger de Saint-Exupéry, nome completo de Saint-Exupéry, ou simplesmente Exupéry, publicou O Pequeno Príncipe em 1943. O livro saiu, inicialmente, nos Estados Unidos, mas hoje já ultrapassou a casa de 100 milhões vendidos. É o livro francês mais vendido no mundo.


Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB

domingo, 17 de abril de 2011

Poesia: a melhor auto-ajuda (Ulisses Tavares)

Calma, esperançoso leitor, iludida leitora, não fi­quem bravos comigo, mas ler auto-ajuda geralmen­te só é bom para os escritores de auto-ajuda. Pois não existe receita para ser feliz ou dar certo na vida. Sabe por quê? Porque, na maior parte das vezes, apenas você sa­be o que é bom e serve para você. O que funciona pra um nem sempre funciona para o outro. Os únicos livros de auto-ajuda que dá para se res­peitar, e são úteis mesmo, são aqueles que ensinam no­vas receitas de bolo, como consertar objetos quebrados em casa ou como operar um computador. Ou seja, lidar com as coisas concretas, reais, exige um conhecimento também real, tintim por tintim, item por item. Com gente é diferente. Gente não vem com ma­nual de instruções quando nasce. Nem pra viver nem pra morrer. E, se você precisa de conforto ou de conselhos, existem caminhos bem fáceis, boa parte deles de graça: igrejas, templos, botecos, amigos ou paren­tes... Lembrou? Se alguém anda necessitado de re­gras, palavras de ordem e comandos enérgicos so­bre o que fazer, melhor entrar para o exército. Mas, se você não quer deixar ninguém mandar em você, tenha coragem e encare-se de frente. Não adianta fugir de seus medos, suas dores, suas fragilidades, suas tristezas. Elas sempre correm juntinho, cola­das em você. Tentar ser perfeito, fazer o máximo, transformar-se em outro dói mais ainda. Colar um sorriso no rosto enquanto chora por dentro é para palhaço de circo. Portanto, entregue-se, seja apenas um ser hu­mano cheio de dúvidas e certezas, alegrias e aflições. Aproveite e use algo que, isso sim, com certe­za, é igual em todos nós: a capacidade de imagi­nar, de voar, de se entregar. Se nem Freud lhe explica, tente a poesia. A poesia vai resolver seus problemas existenciais? Provavelmente não. A poesia às vezes é como aquele bordão do Chacrinha, não veio pra explicar, mas pra confundir. Quando acerta é por acaso, como na vida. Ficar confuso é o normal, relaxe e aproveite. (...) O próprio pai da Psicanálise, Sigmund Freud, depois de passar a vida debruçado sobre os misté­rios do sexo, os grilos na cuca, os gritos do corpo, os sussurros da alma, admitiu que aonde quer que ele fosse ou olhasse, um poeta já havia passado por ali. (...) O sábio Mário Quintana já dizia que um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente... e não a gente a ele. (...) Poesia está mais pra lição de vida que lição de casa. Vá em frente. Procure os poetas. Estão todos na livraria, biblioteca ou página da in­ternet mais próxima. Você nunca mais estará tão sozinho a ponto de achar que precisa de um livro de auto-ajuda para mostrar o caminho das pedras. Ulisses Tavares é poeta e autor do livro Se Nem Freud Ex­plica, Tente a Poesia! (Editora Francis, 2006).

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Os glutões -- Júlio Pimentel Pinto

Ora, direi ouvir estrelas… Não, nada de ouvir. Comer. Não estrelas, naturalmente, que certo perderias os dentes. Nem comer livros, pois não somos cabras. Comer, simplesmente. Comer e ler, comer e escrever. Certos escritores jamais resistiram à oportunidade de trocar o livro por uma refeição; outros preferiram levar a comida para dentro do livro. Alguns foram glutões no dia a dia — casos de Balzac ou Lezama. Outros podiam até ser contidos à mesa, mas promoveram furiosos bacanais gastronômicos livrescos: sobretudo a brigada francesa — Rabelais, Voltaire, Proust, Dumas. Ah, estamos falando de comida. Então não poderiam faltar, óbvio, os espanhóis. Do Sancho comilão de Cervantes ao gourmet-gourmand Pepe Carvalho, de Vázquez Montalbán. Nem italianos, ou melhor, os sicilianos: Vittorini ou Camilleri, entre peixes e doces. Também o clima frio ajuda a harmonizar pratos e leituras. Que o digam Mann, Pasternak ou Blixen, criadora do impagável (em todos os sentidos) jantar de Babette. Ou o glutoníssimo Nero Wolfe, personagem de Stout. E já que nossa pátria é nossa língua e nossa língua é nossa refeição, Eça, Vinícius e Jorge Amado. Todos reunidos numa confraria que sabe que quem devora livros devora algo mais. *Júlio Pimentel é doutor em História pela FFLCH-USP

domingo, 27 de março de 2011

Enviado por Edna Lopes


Certamente, quem escreve tem na ponta da língua o modo como se iniciou no mundo das letras, como leitor e como escritor. O fato é que há sempre o que aprender, o que melhorar, seja como leitor que lê o mundo e a palavra ou como escritor, em forma e conteúdo.

Nesse livro, de maneira leve e delicada, o autor nos conta numa “ficção autobiográfica” da infância como foi aprendendo a ser escritor. Um menino apaixonado por livros, um escritor apaixonado por livros.

O livro é classificado como infantojuvenil, mas boa leitura não tem idade ou classificação. As dicas são valiosas para quem, como eu, brinca de escrever, ou para qualquer escritor/a mais tarimbado/a, que se preocupa em escrever com clareza e alguma emoção.

Da vez que ouvi Scliar numa dessas Bienais da vida, guardo a firmeza da palavra, o encantamento com que falava das leituras que fizera ao longo da vida, a delicadeza poética como demonstrava observar o cotidiano.

Por diversas vezes “pesquei” da Folha online crônicas suas, inspiradas em notícias do jornal, para abrir reuniões de trabalho, aulas, seminários de formação de educadores. Nos elementos do cotidiano, provocações, reflexões... Nenhum sentimento banalizado, tudo profundamente humano, real, poético.

Dias antes de sua morte, reli Memórias de um aprendiz de escritor e sugeri que Vinícius, meu adolescente tirado a filósofo, o lesse...

- Não pretendo ser escritor. Respondeu.

- Nunca se sabe. Respondi...

Um carinho imenso por cada lembrança de leitura, cada pensamento articulado. Fisicamente não está mais entre nós mas sua obra estará.

Eternamente, Moacyr.


http://recantodasletras.uol.com.br/resenhasdelivros/2871687

O impostor profissional -- Josélia Aguiar


Não é só João Gilberto que tem um (suposto?) impostor no Facebook capaz de convencer até os amigos reais.

Escritores de diversos países têm sido representados no Facebook pelo mesmo embusteiro: Tommaso Debenedetti, 42 anos, professor de italiano e história do ensino médio.

Sua vítima mais recente é Vargas Llosa. Depois que intelectuais kirchneristas pediram que Llosa fosse "desconvidado" da Feira do Livro de Buenos Aires, o escritor peruano teve de desmentir que tivesse respondido aos argentinos por meio de seu perfil no Facebook. “Jamais tive página no Facebook e jamais terei”, explicou Llosa. Antes, vários veículos acreditaram no impostor.

Debenedetti não encarna apenas Llosa no mundo virtual. Entre os autores "homenageados" - "prejudicados" talvez seja a melhor palavra, já que ele tenta se fazer passar pelo autor, e não apenas atua como fã - , encontram-se Umberto Eco, Philip Roth, Andrea Camilleri.

A história de imposturas de Debenedetti é antiga: durante uma década, ele publicou na imprensa italiana entrevistas falsas com grandes autores internacionais. Foi descoberto por Roth, a quem entrevistou “falsamente” cinco vezes.

Li a história no "El País" de hoje.


(Painel das Letras - Folha de São Paulo)