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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Febre, de Ademir Assunção

um vício

esse jeito de ser: poesia


um tédio


essa cidade sem



com qual máscara


o lobo se fere


nesse baile?



com qual faca


a madrugada sangra


sua pele?



um oceano,


lágrimas, maresia



só uma brisa


a roçar


nossa febre



sábado, 17 de setembro de 2011

Alinhavo - Vera Romariz

Em linhas frouxas de bem querer
alinhavo tecidos
amados
amigos
antigos
ou novos

Caminha sem retas
o alinhavo
bêbado e feliz

labirinto
sem tempo
de trilhos
que volta

leve
ao ponto de origem

Ama-me assim
em tempo de alinhavo
pontos leves
e presentes
feito bailarino
beija-flor

Aperta-me assim
sem machucar os braços
em tempo de asas necessárias

E se buscares outros tecidos
leva para eles
o jeito alinhavado de ser e amar
que te ensinei
em linhas frouxas de bem querer
sem arremate
final

(In: Película)

Miudeza - Vera Romariz

Planejar a alegria requer
Método
Dissecar o cadáver para
Apreender o mecanismo
Da entranha da vida

Planejar a alegria requer
Introdução ao prazer da manhã
Anúncio tímido
Do fim de uma noite
Exausta
Das sombras de si mesma

Planejar a alegria requer
Desenvolver o tema da miudeza
Da pizza apenas mussarela
Do café sem creme
Da foto em preto e branco que
permite
Ver meio tons
Para re ver
Diverso
E mais fundo

Como quem entra em uma loja
de miudezas
Planejar a alegria requer
Escolher
Paciente
O objeto
Dentre tantos
E aprender a miúda tarefa de ser
Singular
Sem ser extra
ordinário
pois o extra excede
e se perde

Planejar a alegria requer
Método de miudeza
Sem conclusão definitiva
Que nos afasta das sábias coisas
pequenas
verdadeiras
Miúda forma de amar
Pois quando a casa se esvazia
E todos se vão
Resta muito pouco

Teu ser miúdo e leve
Folha que se desprende da
árvore
Em melancolia viagem



(In: Pelicula)

domingo, 4 de setembro de 2011

Poemas de Arriete Vilela são traduzidos para o espanhol (5)

POEMA N.º 6

Hoy
celebraré únicamente
la vida

y dejaré mi alma
bañarse,
como niña alegre,
en la corriente agua del río
Coqueta,
al lado de la carretera,
a la sombra de los anacardos
en flor.

Del libro EL OCIO DE LOS ÁNGELES IGNORADOS

(In: OBRA POÉTICA REUNIDA – 2010)

ANTOLOGÍA DE POETAS BRASILEÑOS ACTUALES

Poemas de Arriete Vilela são traduzidos para o espanhol (5)

POEMA Nº 6

Hoje
celebrarei apenas
a vida

e deixarei minha alma
banhar-se,
como menina alegre,
na corrente água do rio
Catita,
à margem da estrada,
à sombra dos cajueiros
em flor.

do livro O ÓCIO DOS ANJOS IGNORADOS
(In: OBRA POÉTICA REUNIDA – 2010)


ANTOLOGÍA DE POETAS BRASILEÑOS ACTUALES

Poemas de Arriete Vilela são traduzidos para o espanhol (4)

POEMA N.º 2

Soy cría
revelada
de la palabra
que intercepto
en mí

y cumplo el destino
de ser cardo
y no ávidamente
flor.

Del libro EL OCIO DE LOS ÁNGELES IGNORADOS

(In: OBRA POÉTICA REUNIDA – 2010)

ANTOLOGÍA DE POETAS BRASILEÑOS ACTUALES

Poemas de Arriete Vilela são traduzidos para o espanhol (4)

POEMA Nº 2

Sou cria
revelada
da palavra
que intercepto
em mim

e cumpro o destino
de ser cardo
e não avidamente
flor.

do livro O ÓCIO DOS ANJOS IGNORADOS
(In: OBRA POÉTICA REUNIDA – 2010)


ANTOLOGÍA DE POETAS BRASILEÑOS ACTUALES

sábado, 3 de setembro de 2011

Poemas de Arriete Vilela são traduzidos para o espanhol (3)

POEMA 1

Siempre hay algo de ausente que me atormenta.
Camille Claudel


No tienen nombre esos fantasmas
que me rondan; pero tienen una sensualidad
desnuda, grotesca, casi violenta
– aunque sinuosa y fluida –,
que se instala en la punta del grafito,
que suelta vulgaridades,
que me incapacita para las cicatrices.

No tienen nombre esos fantasmas
líquidos; pero tienen una sensualidad cruel,
casi delicada
– aunque incoherente y obvia –,
que se mueve entre la hierba y la piedra,
que me niega un significado,
y que es, en mis venas, una sangría
de amor.

No tienen nombre esos fantasmas cribados
de palabras toscas; pero tienen una sensualidad
disoluta, persuasiva
– aunque veladamente hostil –,
que finge ser travesía,
que se tatúa con el sentido de urgencia de la vida
y que me obliga a las aflicciones del deseo
solitario.

Innombrables,
esos fantasmas míos bailan misterios
en la vastedad devoradora
de la noche.


Del livro ÁVIDAS PASSIONES, ÁRIDOS AMORES (In: OBRA POÉTICA REUNIDA – 2010)

ANTOLOGÍA DE POETAS BRASILEÑOS ACTUALES

Poemas de Arriete Vilela são traduzidos para o espanhol (3)

POEMA 1

Há sempre algo de ausente que me atormenta.
Camille Claudel


Não têm nome esses fantasmas
que me rondam; mas têm uma sensualidade
nua, grotesca, quase violenta
– embora sinuosa e fluida –,
a instalar-se na ponta do grafite,
a desandar em vulgaridades,
a incapacitar-me para as cicatrizes.

Não têm nome esses fantasmas
líquidos; mas têm uma sensualidade cruel,
quase delicada
– embora incoerente e óbvia –,
a mover-se entre relva e pedra,
a negar-me um significado,
a ser, nas minhas veias, uma sangria
de amor.

Não têm nome esses fantasmas crivados
de palavras toscas; mas têm uma sensualidade
dissoluta, persuasiva
– embora veladamente hostil –,
a fingir-se travessia,
a tatuar-se do sentido de urgência da vida
e a obrigar-me às aflições do desejo
solitário.

Inomináveis,
esses meus fantasmas dançam mistérios
na vastidão devoradora
da noite.


Do livro ÁVIDAS PAIXÕES, ÁRIDOS AMORES (In: OBRA POÉTICA REUNIDA – 2010)

ANTOLOGÍA DE POETAS BRASILEÑOS ACTUALES

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Poemas de Arriete Vilela são traduzidos para o espanhol (2)

NO DEBÍAS

No debías enamorarte así
de mis palabras: son hilos
que tejen los encajes con que adorno
los atardecidos márgenes de mis días
y tejen, igualmente, la red con la que cazo
mariposas que, a tu semejanza, aletean
solitarias alrededor de mi misterio.

No, no debías exhibirte así
al borde del pozo: eres pájaro de pequeñas alas
y basta un descuidado soplo de mi poesía
para hacerte ver el cielo más pequeño que una lágrima.

No debías lanzarme al paso
– y así, a la vista de todos –
bellas metáforas: las aplasto con amorosos gestos,
para que goteen en mí el jugo de las hojas
de la pitanga con su olor de infancia
reencontrada en tu ausencia.

Evítalo, ángel de flores de un sólo día.
Pasa al margen de lo que soy,
protege esos ojos tuyos de mares transparentes
y no quieras entender mi silencio, mi rechazo
ni los sutiles abismos sobre los que vivo
y escribo.

Protege tu corazón
y no despiertes la colmena que mira,
más allá de la cerca viva de amapolas,
el dolor en los descuidos de la alegría amorosa.


Del libro ARTESANÍAS DE LA PALABRA (In: OBRA POÉTICA REUNIDA – 2010)


ANTOLOGÍA DE POETAS BRASILEÑOS ACTUALES







Poemas de Arriete Vilela são traduzidos para o espanhol (2)

NÃO DEVIAS

Não devias enamorar-te assim
das minhas palavras: são fios
que tecem a renda com que adorno
as entardecidas beiradas dos meus dias
e tecem, igualmente, a rede com que caço
borboletas que, à tua semelhança, voejam
solitárias ao redor do meu mistério.

Não, não te devias exibir assim
à beira do poço: és pássaro de pequenas asas,
e basta um descuidado sopro da minha poesia
para fazer-te ver o céu menor do que uma lágrima.

Não devias jogar-me à passagem
– e assim, à vista de todos –
belas metáforas: esmago-as com amorosos gestos,
para que gotejem em mim o sumo das folhas
da pitangueira com seu cheiro de infância
reencontrada na tua ausência.

Poupa-te, anjo de flores que só duram um dia.
Passa à margem do que sou,
protege esses teus olhos de mares transparentes
e não queiras entender o meu silêncio, a minha recusa
nem os sutis precipícios sobre os quais vivo
e escrevo.

Protege o teu coração
e não atices a colmeia que espreita,
para além da cerca viva de papoulas,
a dor nos descuidos da alegria amorosa.


Do livro ARTESANIAS DA PALAVRA (In: OBRA POÉTICA REUNIDA – 2010)

ANTOLOGÍA DE POETAS BRASILEÑOS ACTUALES




quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Poemas de Arriete Vilela são traduzidos para o espanhol (1)

EN EL AZUL DE LORCA

Las estrellas de Lorca reposan
sobre el azul dormido,
pero nada me dicen de ti.

¿Sabrán los álamos de los ríos de Lorca
qué pasos peregrinos se interponen
entre nuestros azules,
imposibles hoy?

¿Sabrán las aguas desnudas de Lorca
cuántas luces habrás de cruzar,
en cuántos cuerpos habrás de dormir
y qué laberintos habrás de tejer para engañar al tiempo,
antes de que te asomes en la madrugada
de mi calle?

Hay las carabelas, lo sé.
Pero no debo apresurarte. Vendrás
a la época de los frutos maduros,
del trigo y de las uvas,
de la miel y del amor.
Vendrás en el rastro de Lorca
y en los claros azules en que fui testigo
de la luz de la luna hiriendo de añoranza
la noche profunda.

Vendrás por senderos que se han de consumir
en flor y silencio:
aprenderás a acunar a Lorca
para comprender que, como él,
no conoces tu fin
ni tu destino.

Del libro VAGOS AFECTOS (In: OBRA POÉTICA REUNIDA – 2010)


ANTOLOGÍA DE POETAS BRASILEÑOS ACTUALES

Poemas de Arriete Vilela são traduzidos para o espanhol (1)

NO AZUL DE LORCA

As estrelas de Lorca repousam
sobre o azul dormido,
mas nada me dizem de ti.

Saberão os álamos dos rios de Lorca
que passos peregrinos se interpõem
entre os nossos azuis,
impossíveis hoje?

Saberão as águas desnudas de Lorca
quantas luzes hás de atravessar,
em quantos corpos hás de dormir
e que labirintos hás de tecer para lograr o tempo,
antes que assomes na madrugada
da minha rua?

Há as caravelas, sei.
Mas não devo apressar-te. Virás
à época dos frutos maduros,
do trigo e das uvas,
do mel e do amor.
Virás no rastro de Lorca
e nos claros azuis em que testemunhei
os luares ferindo de saudade
a noite profunda.

Virás por veredas que se hão de consumir
em flor e silêncio:
aprenderás a ninar Lorca
para compreender que, como ele,
não sabes teu fim
nem teu destino.

Do livro VADIOS AFETOS (In: OBRA POÉTICA REUNIDA – 2010)


ANTOLOGÍA DE POETAS BRASILEÑOS ACTUALES




quarta-feira, 24 de agosto de 2011

De Paulo Leminski

o amor, esse sufoco
agora há pouco era muito
agora, apenas um sopro
ah, troço de louco,
corações trocando rosas,
e socos


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

De Hilda Hilst

"Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra."

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Com licença poética - de Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

De João Cabral de Melo Neto

"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."

(Morte e Vida Severina)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Poema 10 - Arriete Vilela

A Alegria:
empenho para que a luz
- feita de partículas -
inunde as vigilâncias
da Palavra

e, em suas frestas , revele
os versos menos febris,
os arredios,
os reiterativamente arruinados
e reerguidos.

(A Palavra sem Âncora - in: OBRA POÉTICA REUNIDA)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Poema 67 - Arriete Vilela

Poema 67

Desaprendo-me
para que nenhum tormento
abra feridas nos meus olhos,

nenhum remorso corroa o cipó
que me ata à vida

e nenhum horror visite as minhas
andanças ao sol nascente.

Desaprendo-me
para que a minha alma possa
resultar-se em paz.

(In: O ócio dos anjos ignorados)

Poema 1 - Arriete Vilela

Poema 1

Quantos adeuses devo dizer-te?

Não sei.

Mas te deixo um presente:
os textos fundadores
(ou fraudadores?)
de mim e de ti.

Talvez queiras mudar-lhes
as entrelinhas...

(In: Frêmitos)